"Você gosta de putaria não é mesmo? Então vem aqui que eu vou te mostrar!"
Ela ainda arriscou uma corrida frustrada em volta da cama, a ser interceptada durante a breve e ridícula maratona. Um pouco de força no antebraço meio fino quase sendo arrastado para bem perto da janela. O vento que vem quando o que é invisível se abre. Com cheiro de combustão e benzina, visão fosca, e ele tentando equilibrar o cigarro em uma das mãos e o antebraço dela na outra.
Abafou um pouco o som, fechando não as cortinas; mas sim as invisíveis janelas. E ela olhando lá para fora, com olhos que já pressentiam a falta, em foto assim pregada na memória fraca, com falhas e ausências. E ainda tentou mexer o rosto, soltando uns grunhidos esquisitos, embora aquele pedaço de roupa rasgada lhe caísse tão bem sobre a boca. Afinal, não se fere um homem assim, ele pensou. E a deixou contemplar um pouco daquilo que ela tanto gostava. Mãos amarradas atrás das costas, um largo cinto de couro no pescoço. Uma vagabunda! gritou. Uma vagabunda que ele amava intensamente. Sofreu. E a comeu assim, linda, nua e de costas. Com raiva, um gemido de dor e dois belos pares de olhos a boiarem n´água. Uma correnteza de rancor. Libido concreta, as sirenes ensurdecidas, as onomatopéias todas reunidas em quinze longos minutos. Esse foi o tempo do gozo dela. Estimado a partir de hoje por ele.
Um canalha sem coração, ela pensou. Mesmo tendo pecado. E ficou com medo dos olhos dele. E daquela respiração pingando no corpo inteiro, a procurar entre as coisas dela a velha caixinha de costuras. E mesmo sem saber ao certo o que lhe esperaria, como e quando tudo aquilo ia acabar, curvou-se mais uma vez diante da força de uma das mãos dele a pregar-lhe no pescoço curvando-a totalmente, enquanto a outra costurava em suas costas com agulha e linha (em letras doridas e teatrais) o que ela jamais - nessa vida - ia saber: EU AMO VOCÊ.
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