terça-feira, outubro 04, 2005 ---

II - A NÁUSEA (segunda parte)

ENTRE ESPASMOS
- UMA TRILOGIA -

Eis o castigo, é isso? Depois do amor, a punição. A invasão da forma mais abrupta, o cerco se fechando em paredes de carnes vivas. Esponjosas. Que é para deixar rastros e seqüelas. Por dentro. E os putos - sempre esses putos - com passos jocosos pelos corredores, dizem que nada tenho. Mas eu sei, eu sinto, eu creio: estou de fato doente. Agora esse frio que não cessa nunca, como faca fria a encostar a parte mais grossa na espinha dorsal e a fina ponta a cutucar os tubos de alimento. Sim, porque se trata de um parasita que não se deixa pegar facilmente. Nem pelos tais exames. E ele nem sequer pode ouvir a tua voz. Só a minha. E ele sabe - de algum modo ele sabe - que aqui nessa casa o espaço é ínfimo, é estreito e já tem dono feito, barba na cara, pau rijo e muita fome. Que isso aqui não é plantação de semente pra depois crescer planta carnívora. A me sugar a cada segundo qualquer migalha de pão, a me vigiar e respirar junto a cada inspiração. Que esse teu eu que se perdeu aqui dentro eu não reconheço e nem mesmo sei definir a fôrma. Repito: estou doente. Que essa temperatura não baixa e essa ânsia que é tanta chega a inchar os pés. Excesso de sal na comida! - alguma vadia denuncia ali do outro lado do corredor. Mas será que nem ela vê? Que aqui já desponta um broto desse teu presente em forma de ausência. Que anda me tirando o sono, me estancando o sangue, a correr feito menino num pique-esconde por entre os órgãos, a brincar de corda entre as veias, a bater os pés fazendo birra querendo água, desejando gostos, a me enjoar com tanto gira-gira.

Tenho sede, vê se não demora pra vir me buscar. Vem logo que estou com medo. A cada dia piora, ando de fato tonta, zonza mesmo, sem você para me segurar. A cama anda pequena, essa barriga me devora, a hora é tortura que eu não quero mais passar. Já quebrei o espelho desse lugar imundo, que ilusão de ótica é coisa pra gente da família daquela palavra que aqui não pode ser mencionada. Já virei piada. Que aqui eles cochicham o tempo todo. Dizem: olha lá a coitada! Eles são todos uns cretinos, uns putos mesmo, que mal conseguem achar o parasita. Você acredita em mim, não acredita? Que eu não minto não. E nem ando vendo coisas. Porque tá aqui na urina que não pára de sair, nesse vômito todo, nessa melodia que habita noite e dia o meu corpo inteiro: é choro de cria, um nãnãnãnã nãnãninãnãnãnã que embala os nervos, que dá nos nervos, eu tô com medo, com medo, com medo. E eu sei, eu sinto, eu creio: tem um parasita vivo aqui dentro.



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Declarações e pedidos de socorro para esse senhor:

www.quartointeiro.blogspot.com



1:45 AM -

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