Quando brigamos crisântemos alagados. (Haicai de Miguel Sanches Neto)
Eis que acordaram logo cedo, quase ao mesmo tempo. Os dois. Passo a quatro, invertebrados, sono nos cabelos. E se depararam, assim a olhos vistos, com um cadáverzinho estirado bem ali no meio da sala.
E ela a lembrar, que a primeira vez que havia visto um defunto tão de perto, ainda coloria nos cadernos linhas sem noção de paradeiro. A sacudir entre as mãozinhas tantos lápis e se perder num aglomerado de gentes em queixumes, lágrimas que não eram dela, nem para ela e que davam um apertozinho no coração e uma vontade de abraçar o mundo. Para ela, aquilo tinha conotação de felicidade. Felicidade com cheiro decrisântemos. Para chegar em casa e ir logo pedindo à mãe que acendesse uma vela. Menina devota, bom exemplo para os filhos vizinhos que mal sabiam que a menina nem rezar queria. Pra botar a melhor roupa dentro do quarto, meia branca até os joelhos, saia plissada, blusa e casaquinho de cashmere com os botões todos no lugar, e fitas a decorar os cachos dos cabelos. E aí era só tirar o colchão da cama de menina e arrastá-la para bem no meio do quarto. Flores nos porta-lápis, vela de sete dias e um gordo chumaço de algodão devidamente distribuído entre ouvidos, boca e narinas. Deitada no estrado da cama é que aquela sensação de conforto ia chegando de mansinho, rendendo o corpo no deleite de uma morte forjada, em teatro de criança que protagoniza o papel máximo da megera divina. Na descoberta dessas tardes de carola fingida que a perda naquele tempo era um fim com pré-diposição para ser um começo, tão logo se refizesse a brincadeira.
Eis que acordaram logo cedo, quase ao mesmo tempo. Os dois. Passo a quatro, invertebrados, sono nos cabelos. E se depararam, assim a olhos vistos, com um cadáverzinho estirado bem ali no meio da sala. Sim, um amor extirpado, belas tripas, líquido sangue, tons de vermelho. Um amor-defunto, sem velas, nem flores, nem cacos. Que morreu quando? Eles não sabiam dizer. E ela a correr os olhos para o vaso da sala, que há muito não lembrava de cuidar dos crisântemos, sempre eles, a celebrarem n´água - mesmo que secos - o amor que acabara de morrer.