Não lhe era recorrente nessa época o mundo dos contos de fadas. Não eram de fantasias que o dia-a-dia vinha todo dia bater à porta de sua casa, como quem diz: "Hoje você quer brincar do quê?" Dava-lhe apatia o riso de outras crianças, o corre-corre, o pique-esconde. Que dos chapéus em cones, de estrelas e finos tules na ponta, esses sim lhes davam ânsias. E ela corria para o banheiro a meter a cara na pia, suadeira, perna fina, a respirar em contagem pausada e aflita, um, dois, três, inspira. "Mas que criança esquisita essa sua filha", o pai repetia. E a mãe emudecida, levava toalhas e a bacia de água fria para o quarto, deitava a menina na cama e molhava-lhe a testa na paciência de toda e qualquer esperança, de que o enjôo e a ânsia fossem cessar de vez.
E eram noites e dias assim. As tonturas, os desmaios, os calafrios. Já se acostumaram com a rotina, mais toalhas, mais água fria. E de vez em quando ela saía, olhinhos a vasculharem o quintal, procurando um desejo perdido, quem sabe estaria pendurado em algum varal? E sentia-se mais altiva, com força nas pernas finas, olhos e ouvidos em patrulha à caça de algo que lhe tirava o sono, lanterna nas mãos de criança a procurar DESESPERADAMENTE pelo tal desejo perdido. Um pedido. De socorro. Que esse mundo lhe parecia esquisito, assim de pernas pro ar, sabe quando parece que você não cabe nele ou mesmo que ele não quer te deixar entrar?
Pois num dia bem cedo, no primeiro estalar do sol a corar algumas nuvens desavisadas, ela vê um menino de calças curtas, sem fantasia, nem nada, mas com dois olhos a boiarem de vermelha felicidade. Um menino de sua idade. Com os pés em desleixo, um apego assim com a terra e o pequeno corpo a concentrar no silêncio uma respiração presa por algum motivo, daquelas que querem deixar vestígio em ventanias, destruir casas, cercas, plantações. Assim como os vulcões. E ele nem se importou que ela já estava ali bem perto, com um dos cotovelos a encostar-se ao seu joelho, a olhar para aquelas mãos tingidas, segurando confortavelmente uma coisa assim tão pequena, penas, ou o que restavam delas naquele borrão de vermelho. Uma cova de bom tamanho. Da palma da mão. A sentir a mão dela apertando a dele, enquanto a outra se despedia da felicidade. Com terra no lugar do ninho. E deixou aquela respiração toda sair como num desatino, quase juntos, a fechar os olhinhos. E depois soltaram os corpos ali mesmo contemplando em silêncio o sol que já imperava soberano num céu que já não lhe parecia tão estranho. Como se o mundo aos dez anos de idade, lhe oferecesse uma porta prontamente a ser chutada pelos pés de um certo menino.